Psiquê e Eros

Psiquê era linda. Filha de um rei e uma rainha, era tão gostosa que, quando a chamavam de princesa, sempre havia um duplo sentido. O povo babava geral pela gata e esquecia de fazer o mesmo com a deusa do amor Afrodite, que, acostumada a ser a gostosona do pedaço, ficou muito puta. A deusa chamou seu filho, Eros - a encarnação do Amor, e mandou que ele fizesse Psiquê se apaixonar pelo cara mais escroto o possível. O guri prontamente acatou as ordens da mamãe e partiu para sacanear a coitadinha. Com um vaso de água amarga do templo de Afrodite, molhou a boca de Psiquê, para que ninguém se apaixonasse por ela. Cheio de pena, tocou a mina com sua flecha. O que ele não esperava é que a garota acordasse e olhasse direto em seus olhos. Atrapalhado com o acontecido, o deus acabou se ferindo com sua própria flecha. Voilá, o feitiço se virou contra o feiticeiro, ficando o Amor enamorado. Vendo o tamanho da cagada que fez, Eros se mandou literalmente voando.

Após isso, os meses passaram, as irmãs de Psiquê (que eram meio mocréias) até casaram, enquanto a princesa ia ficando pra titia. Seus pais ficaram preocupados e resolveram ir num oráculo saber o porquê do encalhe. A resposta foi de que a donzela estava destinada a casar com um monstro, que nem os deuses conseguem vencer. E que o fulano estava esperando a noivinha no alto de uma montanha. Lá se foram a família e os súditos pra tal montanha, levando Psiquê. A menina não estava tão contrariada assim. Como toda mulher encalhada, queria mais era um homem pra chamar de seu, mesmo que este homem fosse o Erasmo Carlos.

E no topo da montanha, a garota esperou. Em vez de um Godzila grego, Zéfiro, um vento muito fresco, apareceu e carregou a gata para uma clareira florida, onde ela adormeceu. Quando acordou encontrou um palácio foda, cheio de empregados invisíveis puxando seu saco e instruindo que o noivo chegaria a noite.

A noite caiu e o noivo chegou. Psiquê não viu as fuças do indivíduo, porque estava escuro e o cara fazia questão do breu. Devia ter vergonha do corpinho. Psiquê não reclamou e mandou ver all night long. Mordomias mil de dia, sexo no escurinho de noite, essa era o cotidiano de Psiquê. Mas como tudo que é demais, enjoa, a princesa quis dar uma sacudida na rotina. Pediu férias conjugais para o maridão e foi visitar a parentalha. Em casa, tratou de se exibir. Disse que a casa dela era tudo de bom, os empregados cem por cento e que o marido era um tesão. As irmãs mocréias ficaram verdes de inveja e começaram a pedir detalhes. Psiquê se embananou e acabou revelando que num viu o marido nem mais gordo nem mais magro.

As megeras começaram a por minhoca na cabeça da caçulinha. Disseram que o cunhado deveria ser um monstrengo, um filhote de cruz-credo e que era melhor ela levar uma lâmpada pra ver a carinha do sujeito. Se fosse um monstro mesmo, que ela passasse a faca no desgraçado.

A babaca da Psiquê caiu na pilha das irmãs, e na primeira noite de volta ao palácio, foi bisbilhotar o marido. Desastrada, assim que reconheceu o gostosão do Eros, deixou cair óleo quente na cara do bofe. Ele acordou com a desobediência de sua patroa, deu um esporro nela e bateu asas de novo. Agora Psiquê estava no olho da rua. Voltou pra casa das irmãs e contou a história toda. As irmãs encararam o acontecimento como uma oportunidade e foram correndo para o topo da montanha pra se jogar para o cunhado. Em vez de Eros, acabaram se jogando em um precipício mesmo. Pois bem, agora sem marido e sem irmãs, Psiquê estava só no mundo. Sem saber para onde ir acabou parando em um templo de Ceres, a deusa da agricultura. O lugar estava a maior bagunça e não sei por que cargas d’água, a mina resolveu fazer aquele faxinão. A deusa gostou tanto que resolveu dar uns toques para a menina. Mandou-a falar com a sogra e tentar a simpatia da jararaca.

Lá se foi a sofredora falar com a mãe do seu amado. Afrodite, como era de se esperar, foi super grossa com Psiquê. Chamou-a de infiel para baixo. Mas deu uma oportunidade a ela. Se ela fosse uma dona de casa trabalhadeira talvez houvesse uma chance dela se reconciliar com o filhinho-da-mamãe. E dito isso pôs a coitada a separar uma tonelada de grãos de trigo, feijão, lentilha, cevada, o escambau. E que isso estivesse pronto quando a madame voltasse de seu rolê olímpico.

Psiquê ficou de boca aberta diante do abacaxi inextricável que teria que descascar. O maridão, no entanto, deu uma mãozinha para a amada. Fez com que formigas cumprissem a tarefa. Quando Afro voltou não acreditou no que viu. Não acreditou mesmo. Na manhã seguinte, como contraprova, mandou a nora catar lã de uns certos carneiros dourados. Quando Psiquê estava para atravessar o rio que separava o pasto dos carneiros, o curso d’água a alertou para fazer isso de noite quando a água estivesse calma e os carneiros (que eram tão brabos quanto pitbulls) dormindo. A garota obedeceu o rio e voltou para a sogra com uma braçada de lã dourada.

A deusa sabia que ela não teria conseguido por si só e mandou-a para uma tarefa ainda mais espinhosa. Descer Érebo e buscar um pouca de beleza da rainha do submundo, Perséfone. Ou seja, mandou Psiquê literalmente para o inferno. Já de saco cheio dos desmandos da sogra, Psiquê, resolveu pegar um atalho para o mundo dos mortos, se suicidando. Uma voz evitou sua morte, chamando atenção da garota à sua própria força de vontade e ainda indicou um meio menos sanguinolento de chegar ao submundo. Antecipou que Perséfone a daria uma caixa com sua beleza dentro e que ela NÃO abrisse a caixa para espiar. A tarefa foi cumprida sem maiores delongas. Mas como errar é humano e repetir o erro é feminino, Psiquê não agüentou e xereteou o conteúdo da caixa. Caiu em coma no meio do caminho de volta.

A essas alturas, Eros, resolveu tomar as rédeas da coisa. Voou até sua bela adormecida, mandou a curiosa terminar o que a mãe tinha mandado e partiu para o Olimpo falar com o todo-poderoso Zeus, para ver se o cara dava uma força. Zeus fez um puta lobby a favor dos pombinhos que Afrodite consentiu que esses se reconciliassem. Hermes foi buscar a garota e no Olimpo ela ganhou um par de asas de borboleta e se tornou imortal.

Bonitinho não? O que não foi dito é que o nome Psiquê significa alma. Ou seja, a moral da história é: como a alma sofre por causa dessa porra de amor!



Escrito por Fábio às 11h19
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Histórico
Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Mijando na Chuva
Suburbanismos
Quarenta Graus Celsius