As frutas

As laranjas novas chegaram à quitanda. Elas eram importadas e caras. Foram postas do lado das laranjas comuns e logo trataram de não se enturmar.
- Dá para chegar mais para lá? Não dá para ver que sou importada?
As outras frutas se apertaram um pouco dando espaço para as metidas.
- Menina, dá para acreditar que nos venderam para essa quitanda uó?
- Eu também não acredito! Eu crente que estava indo para o Fasano.
- Deve ter havido algum engano. Não pode ser, mas deixa pra lá. Pelo menos estamos nos Jardins, não é?
- Logo aparece uma socialite tudo e nos leva!
- Tá boa, nega? Desde quando uma socialite vem a uma birosca igual a essa?
- Ai, deixa de ser pessimista! Tá bom, a empregada da socialite vem e compra.
- Por mim, eu preferia uma artista plástica. Bem hype, cosmopolita, faria comigo alguma receita exótica que ela aprendeu em suas viagens na Índia.
- É! Esse é o clima! Logo, logo, vamos encontrar nosso destino!

O tempo passou e as laranjas vagabundas foram sendo compradas. As mais caras continuaram em seu cesto.
- Eu não acredito! Gente, pelamordedeus, me levem. Eu sou suculenta, eu sou gostosa, sou orgânica, sou IMPORTADA!
- Que desespero!
- É desespero sim, a gente ta ficando passada!
- Passada tá a tua bunda!
- Cala a boca que ta vindo um cliente aí! Sorria!
- Que cara de pobre ele tem! Não quero não.
- Verdade. Olha a camisa da C&A! Cruzes.

Mais uma semana e nada delas serem vendidas. O quitandeiro já olhava feio para elas.
- Acho que tô ficando com mofo.
- Põe um boné para disfarçar. Pior eu que to toda murcha.
- Já cogitou usar botox?
- Com que dinheiro, sua anta? Eu sou só uma laranja!
- Gente, vamos encarar a verdade. Nossa época passou. Estamos ficando velhas.
- Fale por si. Eu me recuso a ficar velha. Eu to malhando.
- E eu fiz uma tatuagem.
- Arrasa!


Escrito por Fábio às 09h37
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Um filho pergunta à mãe:
- Mãe, posso ir ao hospital ver meu amigo? Ele está doente!
- Claro, mas o que ele tem?
O filho, com a cabeça baixa, diz:
-Tipo assim, tumor no cérebro.
A mãe, furiosa, diz:
- E você quer ir lá para quê? Vê-lo morrer?
O filho lhe dá as costas, solta um humpf e vai.
Horas depois ele volta vermelho de tanto chorar, dizendo:
- Ai mãe, foi tão uó, tipo, ele morreu na minha frente!
A mãe, com raiva:
- E agora? Tá feliz? Valeu a pena ter visto aquela cena?
Uma última lágrima cai de seus olhos e, acompanhado de um sorriso, ele diz:
- Muito, pois cheguei a tempo de vê-lo sorrir e dizer: “eu tinha certeza que você vinha!”
- Que merda!
- Eu sei... Mas eu tirei um monte de fotos pra colocar no orkut. O que você acha dessa dele revirando os olhos? Fiquei bem?


Escrito por Fábio às 08h31
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Só em casa Gisele era ela mesma: a menina da roça que, pelada, roubava goiabas com os primos. Nada de sofisticação, nada de perfume, de roupa, de banho, de desodorante e, para o desespero da empregada, nada de papel higiênico.

- Ai, minha filha, põe uma calcinha pelo menos, faz favor.
- Fuck off, dona Eva! Estou na minha casa, sou uma mulher livre, dona do meu nariz.
- Giselinha amada, você ta marcando todo o sofá. Ele é branco, menina. Tem pena da nega velha aqui.
- Nega velha? Você é tão alemã quanto eu!

As duas mulheres conviviam há mais de 10 anos. Era dona Eva que fazia faxina no flat que Gisele dividiu com 16 outras meninas no começo da carreira de modelo.

A garota se levantou e foi para o quarto. A empregada pôs-se a limpar o círculo marrom carimbado no sofá. Gisele voltou de calcinha.

- Happy now, vaca?
- Papel higiênico rola também?
- Não abusa.

A modelo só passava uns poucos dias por ano em casa. O suficiente para deixar várias calcinhas borradas.

- Nem lava! Põe tudo fora. Eu sempre ganho mais. Eu posso, eu sou a Gisele!

Dona Eva não cumpria essas últimas ordens. Assim que a patroa viajava, ela fotografava as peças uma por uma, as embalava e punha para vender na e-Bay.

- Isso aqui vale ouro no Japão!


Escrito por Fábio às 08h50
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- Que risco é esse aí, Luciano?
- Nada – disse o marido tapando os ombros com uma toalha.
- Nada o caralho, deixa eu ver isso.
Mariana era insistente. E também era forte. Com um movimento só, jogou o marido no sofá e arrancou a toalha.
- Uma tatuagem? Que merda é essa?
- Não era para você ver ainda. Eu ainda nem colori.
- Que porra é essa, homem? Duas estrelinhas? O que foi agora, quer ser a Monique Evans?
Luciano se irritou, cobriu as tatuagens e se levantou.
- Mulher chata. O pessoal todo da academia tem estrela tatuada. Tá na moda.
- Academia? Você tá fazendo academia? O que mais você tá aprontando?
- Ah, me deixa.
Luciano se trancou no banheiro e deixou Mariana falando sozinha na sala. Luciano não era assim. Desde que a conheceu no começo dos 90 em um show do Kaoma, o cara fazia só o que a mulher mandava. Ela estava estupefata com a insubordinação.

As semanas que se passaram não foram fáceis para o casal. A mulher jogou pela privada dois potes de whey, dizendo que era anabolizante. Ficou um dia inteiro em choque quando o Luciano apareceu em casa com o peito depilado. Fora que ele resolveu ressuscitar o brinco que não usava desde que tinha 16 anos.

Algumas amigas a aconselharam a maneirar com o marido, que ele tinha feito recém 40 anos, era crise. Outras mandaram Mariana abrir o olho que ele devia ter arranjado uma namoradinha mais nova e estava fazendo essas coisas todas para impressionar a putinha. Mariana, que não sabia o que fazer, achou melhor seguir os dois conselhos.

Se por um lado as mudanças a assustavam, por outro até que ela tava gostando. Ficava secretamente orgulhosa em ver o marido bem mais magro, sem pêlos saindo pelo nariz e orelhas, com roupas novas. Ficava ouvindo na extensão quando alguém telefonava e checava as ligações no celular quando ele entrava no banho. Não havia nada de estranho.

Estava começando a se acostumar com as transformações, quando um dia, Luciano chegou em casa com mais uma novidade.

- Ah, não. Megahair não! Tudo tem limite!

Encheu umas malas de roupa, pegou as crianças entrou no carro e saiu sem dizer nada.

Luciano nem se abalou. Desempoeirou um LP, pôs no aparelho, deu um nó da camisa e, dublando, balançou os cabelos novos diante do espelho:

- Chorando se foi quem um dia só me fez chorar...


Escrito por Fábio às 13h37
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