Microconto

O metrô lotado, Camilinha, 12 anos, voltava da escola com uma outra nota dez nas mãos e um velho tarado se esfregando por trás.


Escrito por Fábio às 17h44
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Mara era delicada como uma jamanta. Se fosse lésbica, seria tachada de caminhoneira. Mas não era. Era uma advogada carioca no começo dos seus 30 anos, ganhando a vida em São Paulo. Era menos bonita do que se achava. De longe e de óculos escuros até que enganava. Mas de perto, os olhos vidrados, a voz de barítono e o vocabulário de letra de funk assustavam.
- Por que caralho ninguém quer me foder nessa porra de cidade, puta que pariu?
As amigas tentavam amenizar, pondo a culpa nos pretendidos.
- É bicha.
- Não é pro teu bico!
- O que você quer com aquele loser?
- Deve ter pau pequeno!
- Ainda vive com a mãe!
As desculpas não terminavam nunca. O que nenhuma tinha coragem de dizer era a verdade. Mara era destemperada. Extremamente simpática se agradada, virava uma megera quando contrariada.
E assim os anos foram se passando e Mara sempre sozinha. Comemorou o aniversário de 40 anos com uma superfesta. Muitas amigas não foram por causa de maridos e filhos. Mara as chamou de putas e outros palavrões.
A festa de 50 anos foi mais simples. Compareceram algumas vizinhas e a empregada.
Aos 60 ela nem quis festa. Não quis admitir que estivesse ficando velha. Era melhor ignorar.
Aos 70 já estava em um asilo, completamente senil. Passou o aniversário solitária, agarrada a potes vazios, gritando:
- Meus iogurtes, eles querem os meus iogurtes!


Escrito por Fábio às 09h23
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Nos bastidores de um pequeno teatro-escola, dois aspirantes a ator conversam enquanto esperam sua vez de se apresentarem.
- Estou amuada.
- Que foi Fábi?
- Olha essa gente toda...
- O que tem?
- Eu não vou conseguir
- Claro que vai!
- Você acha mesmo?
- Claro!
Havia mentira caridosa no olhar de Celso. Ele prosseguiu:
- Você é talentosa, bonita, carismática...
- Acha mesmo?
- Acho!
- Sabe o que é? Desde pequena eu tenho essa ânsia, essa vontade imensa de brilhar.
- Natural.
- Quando era pequena, eu fazia teatrinho. Eu mesmo criava as histórias, figurino, maquiagem. Tudo! Sabe, sou polivalente!
- Imagino...
- Minhas empregadas adoravam, riam até poder mais. Tinha uma que até se mijava. Mijava mesmo! Aí que eu fazia mais graça. Sou uma comediante nata.
Celso sorriu condescendente.
Fábi continuou.
- Minha mãe ficava puta, claro. Eram as roupas e as maquiagens dela que eu usava. Ela chegava em casa, me pegava pelo braço, me enchia de tapa. Que raiva dela, sempre me tolhendo. Aí me trancava no quarto e ia dar esporro nas empregadas. Muito vaca, ditadora. - Fábi acendeu um cigarro e continuou. - É isso que as ditaduras fazem né, Celso? Inibem a produção artística, cerceiam a liberdade de expressão, impedem o povo de sonhar!
Celso nem fala mais nada, só balança a cabeça afirmativamente cada vez que percebe um fim de frase.
- Diz alguma coisa, amore!
- Dizer o quê? Você já sabe que é uma estrela.
- Sei mesmo?
- Sabe sim, escuta o que você mesmo fala.
- Eu falo demais?
- Não, imagina... Você... Você se expressa. É isso
- Verdade. Taí uma coisa que faço bem. Por isso to aqui. Nesse curso. Com o Wolf. Ele arrasa, não arrasa?
- Arrasa...
- Te adoro!
Ouvem-se palmas ao fundo.
- Olha, a menina acabou o monólogo. É sua vez?
- É sim.
- Graças a Deus. Vai lá e brilha!
- Eu vou brilhar!
- Isso, brilhe!
- Yeah!
- Cuidado com esses fios no chão.
- Onde?
- Aí, perto do palco. Tá saindo faísca.
- Onde?
- Cuidado, não pisa!
- AAAAAAAAAAAAAAAARGH!
- Fábi!
- Tô brilhando, tô brilhando!
Ao ver a atriz cair morta no palco, a platéia se ergue e ovaciona Fábi
Wolf comenta na coxia.
- Não sei não. Essa menina é péssima. Tudo que faz é over!


Escrito por Phelipe, ou pelo Fábio? às 11h28
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Velas

- Azuis?
- O quê?
- As velas...
- O que têm as velas?
- São azuis. Não são brancas.
- E daí? – Melissa franziu o cenho, confusa.
Daniela rebateu:
- Eu sempre sonhei com esse momento. Eu e o amor da minha vida, velejando em Angra, num veleiro branquinho, branquinho.
Emburrada, Daniela atirou a mochila no chão e se enfurnou na cabine do barco. A namorada carregou todas as tralhas para dentro. Era Semana Santa. As duas meninas tinham se conhecido no carnaval, em Salvador. Eram amigas de amigas. O interesse foi mútuo. Melissa era rica, Daniela era bonita. Em duas semanas já estavam morando juntas.
- Acho que as velas são brancas, o negócio azul é tipo uma capa, bebê.
Daniela desfez a cara emburrada e mordeu o beicinho, sensualmente. A namorada largou o copo com vodka e pulou em cima da outra.
- Ai, não... Não aqui no ancoradouro. Vamos pro meio do mar? – Daniela arregalou os grandes olhos verdes e, sorrindo, balançou a cabeça assertivamente.
- Tá bom, mas eu não sei se sei pilotar essa coisa.
- Sabe sim. O moço te explicou. É super simples!
Não era difícil não, Melissa abalroou dois barcos na hora de zarpar, mas tudo bem. Em pouco mais de uma hora, já estavam sozinhas no mar.
- Vai lá fora um pouco, Dani.
Dani obedeceu, deitou-se no tombadilho com seus óculos Dior novo, passou o bronzeador importado e fez pose de diva para paparazzi imaginários. Melissa ficou na cabine apertada, fazendo barulho enquanto preparava alguma coisa. Alguns minutos depois gritou:
- Bebê-ê! Pode vir.
A namorada se ergueu e foi saltitando em direção a cabine. Em volta da pequena cama, várias velas acesas. Melissa sorria:
- Que tal? Gostou da surpresa?
Daniela devolveu a pergunta, seca:
- Você tem problemas com velas, não tem?
- Como assim? Não to entendendo.
- Primeiro as velas do barco, agora essas velas...
- O que tem as velas?
- O que não tem as velas, você quer dizer! Comprou isso onde? No 1,99? Poxa, Melissa, eu me dedico a você, sou super carinhosa, te faço ir aos melhores lugares, te mando mensagem pelo celular todo dia. Já gastei mais de 100 reais esse mês só em torpedos. Sabe, eu não sou rica igual a você!
- Porra, o que eu fiz de errado. Você queria um passeio romântico de barco e tá aqui a porra do passeio, porra!
- Sua grossa! Ta uma merda esse passeio! Eu te peço algo simples, bem simples e você é incapaz de fazer direito! Isso é vela que se compre? É para ser algo romântico, sensual! Tá parecendo um velório! Pior! Tá parecendo um despacho.
Melissa ficou vermelha de raiva. Rangeu os dentes, arregalou os olhos e enfiou um tapa na cara da namorada.
Daniela caiu por cima das garrafas de vodka que se quebraram sobre as velas acesas. Um pequeno incêndio começou. Melissa, apavorada, saiu correndo da cabine e pulou no mar, esquecendo-se que não sabia nadar. A outra ficou presa entre as chamas que cresciam.
- Daniela, uma bóia, uma bóia!
- Ai, Melissa, não enche, eu já tenho meus problemas aqui.
- Eu não sei nadar!
- E eu não sou a prova de fogo! Você só pensa em si.
- Me salva. Eu vou morrer!
- Eu, eu, eu, eu... Tudo pra você é eu! Ack! Eu to me queimando aqui; não ta vendo?
- Da... ni... ela!
- Me deixa, me deixa!
- Me... sal... va!
- Não me arraste para seus problemas. Não vê que to morrendo! O problema desse mundo é que todo mundo só pensa em si. Argh! Ninguém vê o lado dos outros!

E essas foram suas últimas palavras.

Escrito por Phelipe, ou pelo Fábio? às 09h25
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