Internéticas

Eduardo sentou-se diante do computador e pensou: “é hoje”. Ia dar uma guinada, poria a vida nos eixos. “Preciso parar logo com isso, preciso provar que eu existo...” cantaralova, enquanto se logava ao bate-papo do UOL. Sexo gay... Seu coração batia mais forte a cada clique, a cada página carregada.

Era isso que ele queria. Conhecer um homem, experimentar pela primeira vez o sexo entre iguais. Sim, Eduardo era cafona. Seguiu adiante. Primeiro contato, novo demais. Segundo contato, que bichona! Terceiro, quaro, quinto... Ele foi perdendo as contas de com quantos caras havia teclado. “Porra, se eu conhecer o sujeito certo, a Janete dança na hora. O que eu quero é ser feliz, caralho!”

Janete era sua noiva fazia três anos. Era ortodontista como ele, dividiam o consultório. Dividiriam a vida. Carinhosa, reclamava que ele sempre corria para o chuveiro depois de gozar.

No enésimo contato, conheceu João. Arquiteto. Cidadão do mundo. Brincalhão. Apaixonado. Eduardo enrolou o cara por duas semanas e o deletou do MSN. Não estava preparado. Casou-se com Janete dois anos depois. Tiveram dois filhos. A menina saiu de casa aos 17, brigada com o pai. O menino morreu aos 18, acidente de carro. Janete pediu o divórcio e foi morar com uma jogadora de vôlei.

Sozinho em casa, Eduardo olhou mais uma vez a foto de João. Havia a guardado sempre consigo . Onde é que ele andaria? O que teria feito todos esses anos? Engoliu um vidro inteiro de sonífero, enfiou um saco de lixo na cabeça e se matou.

Foi a empregada quem achou o cadáver. Tirou todo o dinheiro da carteira, roubou dois vidros de perfume e suspirou:

- Segunda-feira eu chamo a polícia.

...

Augusto usava o teclado como uma arma. Disparou da última vez. “A internet é o novo velho jornalismo. O único compromisso que esse blog tem é com a verdade. Doa a quem doer. Sem meias-palavras, sem meias-verdades. 100% opinião”, escreveu.

Estava empolgado com o blog que criara. Sentia-se livre para discorrer sobre todos os assuntos. “Madonna já era”, “A MPB morreu e esqueceram de enterrar”, “Aborto é crime sim!”, “A Fernanda Montenegro de hoje é uma imitação da de ontem”.

Na segunda semana, recebeu o primeiro comentário. “Vai se fuder, sua gorda! Hahahahaha”. Augusto não respondeu a provocação. Nem baniu o IP. Deletou o blog e se matriculou numa academia.



Escrito por Phelipe, ou pelo Fábio? às 18h59
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